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Aproveitando “Janelas de Oportunidade”: lições da Austrália para o controle de javalis no Brasil

O recente emprego de caçadores e atiradores especializados para reduzir a população de javalis após enchentes no noroeste de Queensland, na Austrália, traz ensinamentos importantes para o Brasil — país que enfrenta há anos o desafio crescente imposto por essa espécie exótica invasora.

Na Austrália, as enchentes atuaram como um gatilho ambiental: ao recuar, as águas deixaram muitos javalis isolados em áreas mais elevadas, concentrando grupos que, em condições normais, se espalham pela vegetação. Essa concentração tornou o momento ideal para uma ação de controle mais eficiente, que contou com apoio de governos, associações rurais e profissionais experientes com técnicas de abate aéreo.

Por que isso importa para o Brasil?

Embora os contextos ambientais sejam distintos, o princípio é o mesmo: eventos climáticos extremos — enchentes, secas, mudanças de uso do solo — podem alterar o comportamento dos javalis e criar momentos estratégicos para ações de manejo populacional eficazes. No Brasil, esses animais já são reconhecidos como uma das maiores ameaças ao meio ambiente, à agricultura e à sanidade animal, sendo citados como um problema crítico em diferentes regiões e biomas.

A espécie Sus scrofa (javali e suas formas híbridas como o javaporco) tem alta taxa de reprodução, alta adaptabilidade e poucos predadores naturais no país, fatores que favorecem o crescimento desordenado de sua população. Pesquisas brasileiras demonstram que, sem manejo contínuo e controlado, a população de javalis tende a sair completamente do controle, causando prejuízos econômicos, ecológicos e sanitários.

Lições práticas para o manejo no Brasil

A experiência australiana reforça alguns principais pilares que já são defendidos por especialistas e legislações ambientais responsáveis:

  • Resposta rápida e estratégica: momentos após eventos que alteram a distribuição dos animais podem ser aproveitados para ações de controle mais precisas e eficientes, reduzindo esforços e custos a longo prazo.

  • Integração entre produtores, técnicos e órgãos ambientais: conhecer a área, saber onde os bandos se concentram e articular ações com órgãos ambientais e de manejo é essencial para que o controle seja eficaz e minimamente impactante.

  • Profissionais habilitados em campo: a participação de caçadores ou controladores populacionais experientes e devidamente autorizados amplia a capacidade de manejo e aumenta a segurança das operações. No Brasil, isso exige habilitação no Cadastro Técnico Federal (CTF) do Ibama e cumprimento de normas ambientais específicas.

Da oportunidade à estratégia contínua

Uma estratégia pontual pode aproveitar momentos favoráveis, como no caso australiano. Porém, um programa consistente de controle populacional no Brasil precisa ser contínuo, técnico e legalmente estruturado, considerando as características locais da espécie, as exigências ambientais e os potenciais riscos à produção rural e à biodiversidade.

A alternativa de simplesmente esperar que a natureza “equilibre” a situação tende a ser ineficaz diante da alta capacidade de reprodução dos javalis. Um manejo integrado que combine resposta rápida a eventos críticos com monitoramento permanente, ações técnicas de campo e apoio a produtores rurais tem muito mais chances de reduzir os impactos dessa praga invasora de forma sustentável e responsável.

ANCAC – União, responsabilidade e liberdade para seguir em frente.

Giovanni Barbieratto – Presidente da ANCAC

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